
As eleições maranhenses desenham não só uma disputa pela sucessão ao governo, como também o rearranjo de coalizões depois de a maior liderança eleitoral do estado na última década sair de cena. Flávio Dino foi eleito em 2014 e reeleito em 2018 com o mesmo vice, Carlos Brandão (MDB), o que ilustrava a amplitude da aliança necessária para vencer a oligarquia Sarney. Elegeu-se senador em 2022 e garantiu a vitória de Brandão ao governo sob a promessa de que seu ex-secretário de Educação, Felipe Camarão (PT), alçado a vice, assumiria em 2026, enquanto o governador seria candidato ao Senado.
Em 2024, Dino virou ministro do Supremo Tribunal Federal e se ausentou das disputas. O que se viu em seguida foi o esgarçamento das relações entre Brandão e dinistas, abrindo espaço para Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís, que aparece como líder nas pesquisas.
Diferentemente de outros estados do Nordeste, onde a concorrência estadual replica a oposição nacional entre petismo e bolsonarismo, o Maranhão tem um histórico de competição entre governismo e oposição ou Sarney versus anti-Sarney. A exceção foi 2022, quando as coalizões estaduais ensaiaram uma nacionalização, com Brandão (então no PSB) apoiado por Lula e Lahesio Bonfim (então no PSC) como representante de Bolsonaro.
A política maranhense chega a 2026 marcada pelo esgotamento da aliança que agregou legendas e lideranças heterogêneas em torno da oposição a Sarney e seus herdeiros e que teve sua força justamente na articulação entre identidades políticas distintas, interesses partidários convergentes e capilaridade territorial. Na ausência de Dino, abriu-se uma fratura por seu legado e condução do bloco. O rompimento entre Brandão e Camarão explicitou esse processo: enquanto o governador operou sua própria sucessão numa lógica familiar, o vice buscou preservar a vinculação com o dinismo e o lulismo.
O conflito não deve ser lido como querela pessoal. Ele expressa uma contenda pelo controle da máquina, pela reconfiguração das alianças partidárias e pela legitimidade para a construção de um novo ciclo político. Esta eleição mostrará o que acontece quando uma coalizão vitoriosa perde a liderança que lhe dava coesão sem estabelecer uma linha sucessória que apazigue conflitos internos.
Esta eleição mostrará o que acontece quando uma coalizão vitoriosa perde a liderança que lhe dava coesão sem estabelecer uma linha sucessória que apazigue conflitos internos.
Orleans Brandão (MDB), sobrinho do governador, tem o desafio de convencer o eleitorado de que há um projeto para além das alianças com prefeituras. A aposta do governo no municipalismo não tem passado de uma capilarização de recursos de maneira fragmentada e a conta-gotas. Ao mesmo tempo, a condição familiar do candidato introduz uma ambiguidade decisiva: se a proximidade pode ser apresentada como garantia de continuidade, ela também pode reforçar a percepção de que a sucessão está excessivamente concentrada em vínculos privados e dinásticos – algo que o Maranhão já experimentou por várias décadas ao longo do século 20.
Felipe Camarão (PT) nos lembra que o tempo é crucial no estabelecimento de coalizões eleitorais. Sua candidatura representa o esforço tardio de preservar uma agenda política de esquerda como alternativa tanto ao grupo governista quanto à oposição de Braide. Essa não é uma tarefa simples e, sob pressões internas e externas, Camarão enfrenta uma tensão entre identidade política e viabilidade eleitoral. A associação com Lula e Dino pode oferecer densidade simbólica e reconhecimento, mas não substitui a construção de uma rede territorial nem a capacidade de dialogar com segmentos eleitorais que não se orientam diretamente por essas referências, principalmente por conta do tempo hábil para se conectar com o eleitorado. A questão é saber se o dinismo ainda tem fôlego para disputas majoritárias ou se virou corrente acessória do Legislativo subnacional.
Eduardo Braide (PSD) chega à disputa estadual combinando a imagem de gestor pragmático e moderado com acenos ao bolsonarismo maranhense. Sua reeleição em São Luís no primeiro turno lhe conferiu uma base eleitoral expressiva e confirmou sua estratégia de governar sem formar uma ampla coalizão partidária. Ao longo de sua trajetória no Executivo, comandou a capital sem uma relação majoritária com vereadores, já que dispunha apenas de 11 das 31 cadeiras da Câmara. Para 2026, tudo indica que o candidato repetirá a fórmula: sustentar um discurso de sobriedade, evitar uma associação direta tanto com Lula como com Bolsonaro e dobrar o apoio do eleitorado conservador.
Já no Senado, temos uma disputa acirrada e até o momento nenhum favoritismo declarado. Com duas vagas, a eleição renova a bancada maranhense em Brasília e reconfigura a formação de alianças, mas desequilibra o pleito majoritário. As candidaturas não podem ser tratadas como simples apêndices das chapas ao governo, pois as composições oficializadas sinalizam um tom pragmático: a chapa de Orleans reúne Weverton Rocha (PDT) e Roseana Sarney (MDB); a de Braide articula André Fufuca (PP) e Lahesio Bonfim (agora no Novo); Camarão anunciou Eliziane Gama (PSD) e Enilton Rodrigues (PSOL).
Portanto, o que está em jogo nas mãos do eleitorado maranhense é definir que projeto político terá hegemonia no próximo ciclo. Como a ciência política bem sabe, não há espaço vazio, e a saída de Dino das disputas eleitorais fraturou em definitivo a coalizão que lhe consagrou.
De um lado, o sobrinho do governador numa tentativa de consolidar uma nova dinastia familiar. De outro, o candidato tardio do PT, enfrentando o dilema de um estado que elegeu presidentes petistas, mas nunca elegeu um governador da legenda. E, numa curiosa terceira via, impossível no cenário nacional, o ex-prefeito da capital faz alianças heterodoxas, incluindo de um ex-ministro de Lula a um candidato bolsonarista da última eleição.
As urnas em outubro vão revelar a preferência pelo estabelecimento de uma nova coalizão vencedora, capitaneada pelo centrão, por um arranjo familiar com traços oligárquicos ou pelo renascimento da via progressista que aclamou Dino 12 anos atrás.
Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/debate/2026/08/14/pesquisa-governo-ma-eduardo-braide-orleans-brandao
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