Primeiro indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitado pelo Senado desde 1894, o advogado-geral da União, Jorge Messias, recebeu nas horas seguintes à derrota ligações e mensagens de solidariedade de diferentes ministros da Corte, em especial dos que atuaram para que ele se tornasse o mais novo integrante do STF.
Várias dessas ligações, aliás, foram recebidas na casa de um deles, o ministro e amigo André Mendonça, para onde Messias foi após sair da reunião com o presidente Lula no Palácio da Alvorada.
Cristiano Zanin, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes telefonaram para oferecer palavras de conforto, demonstrando perplexidade e até abatimento com o resultado.
Com um dos ministros que tenta insistentemente entrar em contato, porém, aliados próximos relatam que Messias não quer falar de jeito nenhum: Alexandre de Moraes. O entorno de Messias está convencido que sua rejeição foi uma operação que passou por Davi Alcolumbre e Alexandre de Moraes.
O chefe da AGU tem dito reservadamente que considera inadmissível a articulação de Moraes contra sua aprovação no Senado Federal. A movimentação do ministro foi detectada pelo próprio governo e detalhada em diversas reportagens, inclusive da coluna. Ao longo do dia da sabatina, o ministro enviou recados aos senadores por diversos emissários, sugerindo inclusive aos que têm questões pendentes no Supremo que avaliassem bem como votariam.
Moraes temia que a aprovação de Messias desequilibrasse o jogo de forças no STF e empoderasse demais Mendonça, que como relator do inquérito do Banco Master será o responsável pela homologação da delação premiada de Daniel Vorcaro.
A colaboração pode trazer implicações para o próprio Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, que fechou um contrato com o Master prevendo o pagamento de R$ 130 milhões em três anos, como revelamos no blog em dezembro.
Mesmo depois de sua atuação ter se tornado pública, Moraes continuou tentando falar com o ministro rejeitado. Mas, se depender de Messias, os esforços do magistrado para colocar panos quentes sobre a situação serão solenemente ignorados.
Questionado por meio da assessoria de imprensa do STF, o ministro não se manifestou até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.
Como também antecipamos no blog, o ministro de Lula pretende se demitir da Advocacia-Geral da União justamente porque a função exige despachos frequentes com ministros do STF e integrantes do Congresso. Messias alegou ao presidente não ter condições de manter interlocução com quem trabalhou pela rejeição de seu nome no Senado, o que inclui Moraes, Flávio Dino e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Dino, por sua vez, não telefonou para o advogado-geral da União após o resultado. Os dois se desentenderam quando disputaram a indicação de Lula para a vaga do STF que hoje é ocupada pelo ex-ministro da Justiça. Quem também não fez nenhum gesto foi Alcolumbre, que evitou se encontrar com Messias durante os cinco meses em que a indicação ficou estacionada entre o Palácio do Planalto e o Congresso.
Após se reunir com Lula e aliados do presidente no Palácio da Alvorada após a hecatombe no Senado, Messias se dirigiu à casa de Mendonça, onde permaneceu até 1h da manhã.
Os dois são evangélicos – o AGU é da Igreja Batista, enquanto Mendonça é presbiteriano – e foram nomeados por Lula e Jair Bolsonaro, respectivamente, em um aceno ao segmento estratégico no cálculo eleitoral.
Menos de uma hora após Davi Alcolumbre proclamar o resultado da votação do plenário do Senado que rejeitou Messias, Mendonça se manifestou na rede social X. O ministro disse respeitar a decisão dos parlamentares, mas que o país “perdeu a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo”.
Ao classificar Messias como “homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais” para integrar a Corte, se dirigiu ao aliado: “Amigo verdadeiro não está presente nas festas; está presente nos momentos difíceis. Messias, saia dessa batalha de cabeça erguida. Você combateu o bom combate!”.
No fim da tarde de quinta-feira, o advogado-geral da União agradeceu a mensagem de Mendonça, disse que receber seu apoio “foi uma das maiores honras” de sua vida e que a postura do ministro do STF durante o processo da indicação “reflete integridade, bondade e coerência, servindo como uma fonte de inspiração para toda uma geração de magistrados”.



